Odissi > Técnica > Repertório

Adança Odissi que conhecemos na atualidade, são vestígios da dança realizada pela tradição Mahari, dançarinas dos templos e pela tradição Gotipua, meninos responsáveis pela representação da dança Odissi fora dos templos.

A atual forma da dança deve-se a genialidade de alguns gurus das tradições Mahari e Gotipua que muito colaboraram para a sofisticação e codificação do estilo. Na ocasião da independência da Índia (1950), estudiosos, gurus e dançarinos – atores reuniam-se na cidade de Cuttack com o propósito de sistematizar e codificar o estilo Odissi, definir a estrutura de cada peça coreográfica, bem como a estrutura a qual uma apresentação clássica obedeceria. Enquanto os gurus enriqueciam o repertório Odissi, Guru Padmavibhushan Kelucharan Mohapatra nos últimos 50 anos com sua genialidade criativa, vem a ser conhecido como o arquiteto do repertório contemporâneo. Criou mais de 50 produções para grupos e mais de 100 composições solo juntamente com compositores brilhantes como Balakrishna Das e Bubhaneswar Misra.

Uma performance de repertório clássico segue uma estrutura fixa de apresentação, entretanto o dançarino solista tem a liberdade de selecionar e decidir qual peça e temas serão apresentados.

Mangalacharam: a peça invocatória que abre uma apresentação de repertório Odissi é chamada de Mangalacharam, palavra sânscrita que significa primeiros passos para a auspiciosidade. Um Mangalacharam é dividido em quatro importantes partes. Tradicionalmente num dos cantos do palco uma deidade da escolha do dançarino ou uma singela lamparina acesa, representa a essência da arte da dança e seu conteúdo transcendental. Na primeira parte – Manchapravesh, o dançarino – ator realiza sua entrada no palco levando pétalas de flores em suas mãos para prestar uma homenagem no murti, local onde a deidade ou lamparina está. Quase sempre esta homenagem é realizada a Jagannath – uma das formas de Krishna, deidade que preside a dança Odissi. Na seqüência o dançarino realiza no centro do palco o Bhumi – Pranam, uma saudação à Mãe – Terra, acompanhado pela percussão. A peça prossegue com o Ishtadeva Vardanam, uma invocação cantada em sânscrito ou em oriya, para uma deidade previamente eleita pelo dançarino. Após uma saudação aos quatro pontos cardeais, a peça conclui com o Trikundi Pranam, uma tripla saudação que reverência primeiramente a Deus, depois o guru que ensinou a arte ao dançarino e por último à distinta audiência.

Batu Nrttya: após abrir a apresentação com a peça Mangalacharam, o recital continua com Batu Nrttya. Esta é uma peça abstrata e única na dança Odissi. Contem todos os elementos básicos da técnica e é considerada parte essencial dos primeiros dois anos de aprendizado do dançarino-ator.

Batu é apresentado como uma oferenda a Shiva em sua forma como Bhairav. O início da dança mostra o dançarino tocando diferentes instrumentos musicais como oferenda devocional. Os instrumentos apresentados são a Veena (instrumento de corda), pakawaj (percussão), flauta e címbalos, e o desenho coreográfico descreve como um dançarino prepara e oferece uma dança em um templo. Os gestos e poses esculturais são as mesmas encontradas em esculturas tridimensionais no teto de pirâmide escalonada do templo de Surya no distrito de Konarak, onde mulheres segurando instrumentos musicais parecem ocupadas em entreter com sua música e dança os seres divinos no céu.

Batu é uma peça única de dança abstrata cuja composição reflete o tantrismo de Orissa que ainda é visto na adoração a Bhairav. O culto a Shiva foi largamente disseminado no estado de Orissa entre os séculos VII a X. Batuka Bhairav é um dos 64 terríveis aspectos de Shiva.

Pallavi: o têrmo Pallavi é usado para descrever as peças de dança abstrata do repertório clássico Odissi, com exceção do Batu Nrttya e Moksha. Pallavi é normalmente nomeado de acordo com o rag ou modo melódico com o qual foi composto. A composição da música e dança pura e lírica do Pallavi, que em sânscrito significa elaborar, faz alusão ao movimento poético do desabrochar de novas folhas numa planta trepadeira que se ergue em direção ao sol. A estrutura, complexidade e velocidade de um Pallavi pode variar consideravelmente.
Alguns Pallavis possuem uma breve interpretação de texto no início da dança, que expressa o conteúdo emocional desenvolvido nesta peça. Muitas vezes o sloka ou mantra interpretado em sânscrito, descreve a deidade que personifica o modo melódico ou rag do Pallavi. Essa é a única porção interpretativa de um Pallavi, que requer extremo controle técnico e graciosidade.
Mesmo sendo uma peça de conteúdo abstrato, o sentimento ou estado interno, reflete a experiência interna do movimento puro realizado pelo dançarino – ator. Usualmente é o estado de alegria, mas também o do recato da antecipação de uma jovem preparando-se para o encontro com o seu amado, como o caso do Shrungara Pallavi, ou o movimento comparado às ondas do mar como no caso do Taranga Pallavi.

Abhinaya: após a apresentação das peças abstratas estabelecer a técnica e forma do estilo Odissi numa apresentação de repertório, o aspecto mais importante, o Abhinaya ou expressão dramática da dança clássica indiana, é apresentado.

Grande parte dos temas envolve as histórias de Krishna e Radha. O sentimento de amor (shringara rasa) prevalece na poesia do Gita Govinda do poeta Jayadeva e de outros importantes poetas medievais como Banamali Das, Upendra Bhanja e Gopala Krishna Pattanaik. A estética clássica indiana usa o amor humano como uma metáfora para a compreensão do amor divino. Consequentemente divide e subdivide as nuances e estados do amor em relação à antecipação, preparação, espera, desapontamento, conflito, reconciliação e por último a União. A filosófica do amor é apresentada com alto nível de refinamento e sofisticação na estética da dança Odissi e na poesia que a inspira.

Música, dança e poesia combinados numa peça, e os vários estados internos e sentimentos experienciados pelo ator – dançarino, realçam o conteúdo de narrativas e passagens de épicos como o Ramayana e o Mahabharata. A música vocal abrange a literatura na forma de poesia musicada nas canções dos abhinayas. A devoção é outro importante sentimento projetado através da dança.

Moksha: segundo a filosofia hindu, a finalidade última da vida humana é Moksha, a libertação do vínculo ao ciclo de morte e renascimento, para a união com a realidade última. Na dança Odissi a peça Moksha representa e reflete a culminação das aspirações de importância espiritual de uma apresentação. O dançarino procura estabelecer uma experiência de transformação para ele mesmo e para a audiência, utilizando como instrumento a arte Odissi e a filosofia na qual está fundamentada.

Moksha é realizado em tempo rápido acompanhado por sílabas rítmicas tocadas no pakawaj (percussão). Não há uma canção, porém as variações rítmicas podem tornar-se complicadas na versão longa do moksha. Frequentemente moksha conclui com um sloka (verso) ou mantra cantado em sânscrito.

Foto: Ramesh Lalwani
Dançarina: Sujata Mohapatra

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