Gestos simbólicos em suas mãos

Por Silvana Duarte

A ação das mãos na dança Odissi constitui uma linguagem que associada ao movimento e expressividade do corpo e da face, torna possível  levar um “conteúdo” adiante e revelar, por meio da imagem, nuances de um poema ou de uma narrativa. O vocabulário desta linguagem das mãos é composto de gestos imitativos e significados dos quais podem facilmente ser apreendidos. Quanto maior seu vocabulário, melhor expressa-se o dançarino e consequentemente o espectador terá uma compreensão clara do conteúdo transmitido.

 

Não tendo que fazer uso da fala, graças ao suporte musical dado pelo cantor e instrumentista, o dançarino relata uma história através da dramaticidade do corpo, olhos e principalmente de suas mãos.  As mãos representam o veículo principal da expressão, por isso elas contêm uma posição predominante nos tratados e nos ensinamentos da tradição oral dos gurus de dança.

 

As mãos são, depois da face, o elemento espiritual do corpo. Mesmo nos eventos da vida cotidiana, invariavelmente todos os incidentes da vida psíquica são traduzidos pelas mãos.  Alegria, surpresa, expectativa, dão origem a uma variedade própria de gestos. O indicador sobe em ameaça, frequentemente substituindo a palavra falada. As mãos estão sempre em direto contato com a realidade. Em assalto ou defesa, as mãos são investidas de força e poder. Para dar boas vindas, são investidas de gentileza e confiança.  Elas giram em desespero e unem-se em meditação ou se alongam em humildade e respeito. Há um gesto para orar, um para dar e outro para receber uma benção. Com esta aptidão natural das mãos de expressar tudo o que é sentido pelo coração e concebido pela mente, os hindus tem concebido uma série de gestos que são uma linguagem tão completa quanto o modo literário de discurso. Entretanto como este é um meio corporal de expressão, as mãos tem a vantagem de integrar-se ao movimento dos membros, de combinar com a dança, e de adicionar à beleza formal e dinâmica, o gracioso charme de inúmeras posições de dedos, de padrões inesperados e complexos, formado pelos dedos entrelaçados.

 

Esta arte da linguagem das mãos na dança indiana, como reflexo das tendências da civilização, com respeito ao pensamento hermético inicial, tem que ser penetrado e estudado, para que o significado mais profundo nos torne capazes de participar com mais intensidade do encantamento trazido para nós pela arte sagrada da dança clássica indiana.

“Para onde quer que as mãos se movam, os olhos a seguem. Para onde os olhos vão, a mente os segue. Onde quer que a mente se instale, desperta a emoção. Onde o estado da mente se intensifica, a benção essencial do sentimento surge”.

Foto: Dárida Faggi
@Padmaa – Arte e Cultura