Entrevista com Silvana Duarte

Artistas brasileiros, tradições da Índia. Integração cultural, intercâmbios e experiências nas artes do corpo. Entrevista com a bailarina e Profa Silvana Duarte (Nov. 2014).

1 – Por quê a Índia e a cultura indiana como eixo temático da sua produção artística?

Sou bailarina e professora de dança, com formação em balé clássico, moderno e jazz. A experiência com o yoga iniciou na adolescência e há 10 anos concluí o terceiro curso de formação em Yoga. Já a dança clássica indiana Odissi iniciei formação há 20 anos. Com o background em dança clássica Ocidental e yoga, a transição para o estudo e vivência da dança clássica indiana me pareceu um caminho muito natural, uma vez que, dança e yoga na tradição indiana, são os lados de uma mesma moeda. Tradicionalmente a experiência estética e yóguica são experiências muito próximas e dialogam entre si.

O Odissi no Brasil teve sua primeira aparição na década de 90 com a vinda de Madhavi Mudgal, trazida pelo bailarino Ivaldo Bertazzo. O contato com a sofisticação de uma arte como a do Odissi, sinalizou para mim, uma contribuição inestimável, à formação de um dançarino-ator, uma vez que nessa tradição as artes da música-dança-teatro, não são artes separadas, tal como entendemos no Ocidente.

A sofisticação da arte Odissi inclui uma valiosa experiência no refinamento e educação da sensibilidade das diferentes partes do corpo, que dialogam entre si para compor ou traduzir corporalmente, emoções e sentimentos que estão muito além do que entendemos e chamamos de mera “interpretação” no teatro e dança. São “vivências” enriquecedoras na construção de um corpo e gesto permeado de significado, que tomam forma a partir de um processo de auto-observação e re-construção de significados internos constantes.

Essa experiência não é possível ser vivenciada na dança do Ocidente. Talvez seja essa a razão do balé clássico ter bebido na fonte de conhecimento da dança clássica e do yoga.

Meu trabalho nos últimos 17 anos, foi de realizar espetáculos-solo de repertório tradicional, palestra-demonstrações para diferentes públicos como teatro, dança, yoga e público leigo, bem como de ministrar workshops intensivos para esse público. No mesmo período venho ministrando aulas regulares de dança Odissi, da mesma forma que nas escolas de dança na Índia, preservando os valores e princípios que embasam uma arte devocional dessa natureza em seu ensino tradicional. A produção de espetáculos para alunos com mais experiência, são uma consequência natural desse processo de aprendizado, onde os praticantes tem a valiosa experiência de, em palco, dimensionar os valores e saberes que foram adquiridos por meio do processo de uma prática regular de auto-observação e constante superação.

2 – Quais as principais experiências nas tradições indianas que influenciaram a sua obra?

A experiência em viver em um ashram de dança no sul da Índia (Nrityagram), forneceu uma experiência muito mais rica, muito além do trabalho corporal e de condicionamento físico próprio de um bailarino Ocidental. Acrescentou outro entendimento ao universo de possibilidades de construção de um trabalho corporal expressivo do bailarino. Falo de uma experiência mais subjetiva, interna, possível de imprimir uma outra qualidade muito mais expressiv e sofisticada ao gesto e ao movimento.

Acho que muito dessa pergunta, acabei respondendo na primeira pergunta.

3 – Em quê consiste os aspectos técnicos do seu trabalho?

Basicamente antecede a preparação do trabalho corporal do Odissi, alongamento e aquecimento baseado nos princípios do balé clássico e reeducação corporal, método de Ivaldo Bertazzo. Nessas preliminares, o trabalho consiste em acordar as sensações do corpo, para o praticante identificar e reconhecer em seu corpo, linhas mais precisas de alinhamento muscular e articular e sua manutenção.

São ensinadas a nomenclatura técnica Odissi, para posições de pés, mãos, movimentos da cabeça, pescoço, olhos, formas de caminhar, posições básicas do corpo e etc., e sua aplicação de acordo com o os ensinamentos dos Gurus, baseados no Abhinaya Darpanam e Natya Shastra.

Os basics steps (chouka e tribhanga), como preparação do corpo, para que no devido tempo, esse corpo esteja familiarizado com a linguagem técnica. Faz parte dessa preparação, o aprendizado das peças abstratas (nrtta), onde o controle técnico poderá ser refinado.

Só então, após o controle técnico adquirido com o repertório das danças abstratas, é que se inicia o aprendizado das danças expressivas. Essa etapa do aprendizado requer conhecimento teórico dos valores filosóficos e estéticos assinalados pelos shastras, conhecimentos de outros importantes textos como o Gita Govinda, mitologia e etc. É imprescindível o contato dos estudantes Ocidentais com bons professores da tradição Oryia. 

4 – Em números, qual o levantamento de apresentações, performances, palestras e demais atividades da sua produção artística? Houveram exibições do seu trabalho em teatros, escolas ou universidades indianas?

Mais de 100 apresentações-solo em teatros do Brasil, Índia e América Latina. Na Índia as apresentações-solo foram realizadas com música ao vivo na cidade de Delhi. Também algumas apresentações no sul da Índia, ligadas ao Nrityagram.
Lecionei yoga no Nrityagram por dois anos. Na mesma ocasião lecionei aos dirigentes e dançarinos do gurukula, princípios de condicionamento físico pautados na técnica do balé clássico e moderno. Desde então (isso foi em 1995 e 96) o Nrityagram investe no intercâmbio com o balé clássico e moderno. Isso colocou o trabalho da escola e de suas dirigentes, Surupa Sem e Bijayini Satpathy, no patamar de apresentações brilhantes de calibre internacional, reverenciadas pelo “The New York Times”, e aclamadas pelos maiores críticos de arte dos USA, bem como por grandes companhias tais como: The Joice Ballet
e Mikhail Nikolaévich Baryshnikov.
Nos últimos 15 anos, no Brasil, foram mais de 100 palestras-demonstrações e workshops de Odissi, realizados em teatros, espaços culturais, escolas de arte e universidades brasileiras.

5 – Como definiria a sua obra no contexto Brasil-Índia? Qual a sua contribuição neste diálogo?

A maior contribuição tem sido a visibilidade e apreciação dos aspectos formais da dança Odissi, em importantes capitais brasileiras, que atingi um número expressivo de pesquisadores da dança e teatro, interessados em conhecer a dança-teatro tradicional da Índia, bem como o público geral. Sempre levando em conta o contexto das produções artísticas e culturais da Índia, em diálogo com o nosso próprio contexto.

Sobretudo facilitar o contato dos praticantes de Odissi com bons professores-artistas indianos e apontar alunos talentosos para o programa de bolsa de estudos fornecida pelo ICCR (Indian Council for Cultural Relation) para estudar na Índia.

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A entrevista acima foi concedida pela bailarina e Profa. Silvana Duarte ao Prof. Jorge Lúzio, como parte de suas pesquisas e trabalho apresentado no “Seminário Internacional Diálogo Índia-Brasil II” – um encontro de intelectuais e pesquisadores brasileiros e indianos para discutir a realidade da interação acadêmica entre os dois países. (COMUNICAÇÃO –  6.11.2014) Artistas brasileiros, tradições da Índia. Integração cultural, intercâmbios e experiências nas artes do corpo.

RESUMO: No terceiro quartel do século XX, a literatura existencialista e as novas temáticas socioculturais presentes no impacto da Contracultura sobre as produções artísticas na Europa e nos EUA, determinaram interações estéticas que foram ao encontro dos saberes  e das tradições da Índia. As plásticas indianas e a noção de um corpo yóguico, paradigmas sustentados por milenares fundamentos filosóficos, viram-se inseridos nas artes do corpo, um campo de práticas comuns à bailarinos, atores e intérpretes que integraram conhecimentos e técnicas das grandes culturas asiáticas em seus processos de criação, experimentações e métodos de formação de artistas; a própria Índia, numa conjuntura pós colonial, vivenciou redescobertas das artes tradicionais e releituras dos legados históricos. Neste contexto, com efeitos desdobrados nas décadas seguintes, artistas brasileiros em imersões, contatos, treinamentos e vivências em ashrams no subcontinente, assimilaram linguagens e repertórios localizados no cenário cultural e artístico das principais metrópoles do Brasil. A contínua e fértil relação de interfaces e trocas avançou em parcerias e resultados – alguns apresentados neste trabalho, e que atualmente constituem um dos importantes aspectos de uma dialogia que aponta para a consolidação da promoção das artes e da cultura indiana em outras terras, igualmente tropicais,  brasileiras,  além do Índico.

*Jorge Lúzio: Doutorando em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC SP, é mestre em História pela mesma instituição. Membro do Laboratório de Interlocuções com a Ásia – LIA FFLCH USP e do Grupo Outros Orientes – Arte Oriental/CNPq. Com pós graduação Lato Sensu em Cultura e Arte Barroca / UFOP-MG e especialização em Yoga / UniFMU-SP, possui  formação em Dança Clássica Indiana Odissi (DRT São Paulo-SP). Exerce docência em Religião e Cultura, Estudos Afro-orientais, e Metodologia de Pesquisa no Centro Universitário Assunção / Unifai – São Paulo.

Entrevista com Silvana Duarte